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Perda de audição congênita progressiva em crianças causada pelo zika vírus ocorre em casos de microcefalia

Pesquisa identificou os impactos do zika no desenvolvimento da audição e linguagem em crianças que tiveram contato fetal com o vírus

Por Raul Holanda

Pesquisa vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Cirurgia (PPGC) do Centro de Ciências Médicas (CCM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) identificou os impactos do zika vírus no desenvolvimento da audição e linguagem em crianças expostas ao vírus ainda na fase intrauterina. O estudo acompanhou mais de 300 crianças recém-nascidas que tiveram contato fetal comprovado com o vírus. Observou-se que a perda de audição congênita progressiva causada pelo vírus da zika ocorre apenas em casos de microcefalia, além de que os primeiros sinais de perda de audição ocorrem nos primeiros meses de vida, prejudicando o desenvolvimento da linguagem.

Realizada pela pesquisadora Danielle Seabra, a tese de doutorado “Desenvolvimento da audição e linguagem em crianças expostas ao zika vírus na vida intrauterina” foi defendida, em 2022, sob orientação do professor Sílvio da Silva Caldas. Para realizar o estudo, a pesquisadora selecionou um grupo de 342 crianças, nascidas dos anos de 2015 a 2017, que participaram de uma outra pesquisa do Grupo de Pesquisa da Epidemia de Microcefalia (Merg) da Fundação Oswaldo Cruz Pernambuco (Fiocruz-PE), e as acompanhou por um período de quatro anos.

“Foi um estudo observacional longitudinal, ou seja, nós acompanhamos ao longo de quatro anos, com avaliações semestrais, crianças expostas ao zika vírus no período intrauterino. Estas avaliações consistiam em exames audiológicos e de resposta comportamental das crianças ao som”, explicou Danielle. De acordo com ela, os primeiros quatro anos de vida são os de maior importância para o desenvolvimento da audição e da linguagem das crianças. “Este é um período crítico para o desenvolvimento da linguagem, além de já ser um período mínimo recomendado por comitês internacionais para que se monitore a audição de crianças com risco de perda auditiva, quando, por exemplo, as mães tiveram rubéola, citomegalovírus ou outras infecções na gestação”, ressaltou. Segundo ela, a pesquisa pautou-se na busca por sintomas de perda auditiva moderada, considerada o segundo estágio mais grave na escala de perda de audição.

Após o acompanhamento, o estudo apontou para dois grandes resultados. “Observamos, principalmente, que a perda auditiva congênita relacionada à exposição ao zika vírus ocorre em casos de microcefalia. Além disso, parece não haver perda auditiva de instalação tardia em crianças expostas ao zika vírus na gestação, ou seja, a perda, quando acontece, se manifesta logo nos primeiros meses de vida”, enfatizou Danielle. Ainda segundo ela, a pesquisa esclarece bastante o comportamento do zika vírus em relação ao sistema auditivo, mostrando que a perda da audição está diretamente relacionada à microcefalia, o que, também de acordo com a pesquisadora, mostra que crianças sem microcefalia provavelmente não estão sob maior risco de perda auditiva ligada ao zika vírus. A pesquisa concretizou essa descoberta após observar que nenhuma das 342 crianças selecionadas, que não foram acometidas pela microcefalia, apresentou qualquer sinal de perda auditiva. 

Para chegar aos resultados, dois exames principais foram realizados, durante o estudo, para avaliação da audição. Um deles, o potencial evocado auditivo, busca avaliar a resposta do nervo auditivo ao som. “Colocamos fones de ouvido nas crianças. Eles emitem um som em uma faixa específica de frequência e capta a resposta do nervo auditivo”, disse a pesquisadora. Aplicado a cada seis meses, esse tipo de exame é realizado para a triagem auditiva de crianças com alto risco de perda da audição. O segundo procedimento envolveu a chamada audiometria observacional comportamental, que contou com o auxílio de instrumentos musicais com frequências sonoras pré-determinadas para observar a atenção e localização ao som e se a criança procura a fonte sonora e consegue identificá-la. 

Mais informações
Programa de Pós-Graduação em Cirurgia (PPGC) da UFPE
(81) 2126.8519

ppgc@ufpe.br 

Danielle Seabra
dani_seabra@hotmail.com 

Data da última modificação: 21/06/2023, 08:52